segunda-feira, 16 de agosto de 2010

É a estação dos balanços,
renúncias e decisões.
Tudo parece o que é.

A face opaca do mundo
nos encara, fria e cega.
É necessário enfrentá-la

como se escala uma pedra.
É preciso penetrá-la
como se houvesse um lá-dentro.

Frutas hesitam nos galhos
entre despencar de podres
e sacrificar-se aos pássaros.

As feras em suas tocas
mordem as próprias feridas
gestando o próximo bote.

Os utensílios mais díspares -
colher, caneta, revólver -
se oferecem prestimosos

à mão que ousar primeiro.
O mundo retesa os músculos
e prende a respiração.

É a estação dos remates,
dos fechos prenunciados
e palavras sem retorno.

Todo o tempo agora é pouco.

(P.H.B)

domingo, 1 de agosto de 2010

"Ó noites, ó tépida treva compartida, ó amor que flui na sombra como rio secreto, ó momento de deleite em que cada um é os dois, ó inocência e candor da ventura, ó união em que nos perdíamos para depois nos perdermos no sonho, ó alvores do dia e eu a contemplá-la."

(Borges)
É isto que me cabe.
Dentro disso é necessário caber
até que tudo se acabe.

Mas há nisso uma espécie de prazer,
uma volúpia esguia,
impalpável, difícil de dizer,

feito uma melodia
que se escutou e depois esqueceu,
porém retorna um dia,

inconfundível: sim, este sou eu,
e eis aqui o meu palácio
que construí, e agora é todo meu:

um só andar, um passo
de frente e um de fundo. É um bom espaço.