quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ah, o haver amanhã -
bela solução
pra todo problema insolúvel.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar. Amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do teu corpo, do teu riso. Há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensiosismo vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com teu amor que não me serve de ponte, a verdade é que não amo aquilo que amas em mim.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"O que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto e no entanto volta sempre a me enfeitiçar."

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Do sonho nas melodias

Ao fresco da viração;

Embalada na falua,

Ao frio clarão da lua,

Ao ais do meu coração!

"Não só é luz que cai sobre o

mundo

a que alonga em teu

corpo

sua neve sufocada,

mas também se desprende de ti

a claridade

como se fosses acesas por dentro.

Debaixo da tua pele vive a lua."

(Pablo Neruda)

Te amo por sombrancelha, por cabelo, te debato em corredores branquíssimos onde se jogam as fontes de luz, te discuto em cada nome, te arranco com delicadeza de cicatriz, vou pondo em teu cabelo cinzas de relâmpago e fitas que dormiam na chuva. Não quero que tenhas uma forma, que sejas precisamente o que vem atrás da tua mão, porque a água, considera a água, e os leões quando se dissolvem no açúcar da fábula, e os gestos, essa arquitetura do nada, acendendo suas lâmpadas no meio do encontro. Todo amanhã é o quadro onde te invento e te desenho, disposto a te apagar, assim não és, muito menos com esse cabelo liso, esse sorriso. Busco tua soma, a borda da taça de vinho é também a lua e o espelho, busco essa linha que faz o homem tremer numa galeria de museu. Além do mais te amo, e faz tempo e frio.

(Julio Cortázar)

O Outro - Borges

Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou.

De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali esta a flor.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"De noite, amada, amarra teu coração ao meu e que eles no sonho derrotem as trevas como um duplo tambor combatendo no bosque contra o espesso muro das folhas molhadas . Noturna travessia, brasa negra do sonho. Interceptando o fio das uvas terrestres com pontualidade de um trem descabelado que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse. Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro, à teracidade que em teu peito bate. Com asas de cisne submergido, para que as perguntas estreladas do céu responda nosso sonho com uma só chave, com uma só porta fechada pela sombra."

(Pablo Neruda)
"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas... Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo."

(C. F. A.)

For a minute there

Sonhou-a ativa, calorosa, secreta.
Cada noite a percebia com maior evidência.
Não a tocava: limitava-se a testemunhá-la,
observá-la, talvez corrigi-la com o olhar.
Percebi-a, vivia-a de muitas distâncias e ângulos.
Acordar e entender (sem alívio)
que esta noite de sono manteve
cada objeto onde ele sempre esteve,
inclusive você, inclusive o

incansável desejo impossível
de não ser outra coisa senão
inconsciência e escuridão.

Soneteto III

"Cheguei. Tarde, talvez, mas não tarde demais.
Trazendo aquela tralha toda, parecida
com tudo aquilo que você já tem, aliás.
Como era de se esperar. O forte da vida

não é a originalidade. Eu não me iludo.
Abre essa porta. Frente ou fundos, tanto faz.
Abre depressa, antes que desabe tudo."

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"A dor do fim
contamina o momento anterior
e dele passa ao instante antes,

e sendo assim
o que era um só ponto final de dor
vira uma sucessão de instantes

sempre a doer,
a andar pra trás, de dor em dor, chegando
ao início de tudo, enfim,

sem entender
como pode um começo doer tanto
quanto (se não for mais que) um fim."

Soneto Sentimental

"O que você chama de amor é isso?
Essa perda do parco tempo e espaço
que ainda te restam, esse desperdício
de esperma? Esse viver sempre em compasso
de espera, sempre com o mesmo desfecho
que te faz dar o que te falta mais?
Que amor mais besta - uma espécie de peixe
palerma, que nada, nada e não sai
do lugar - é isso? Esse diz-que-diz
que não te deixa louco por um triz
e só te inspira mesmo ódio e horror?
Que te machuca tanto que no fim
não dá pra perdoar? É isso? Sim,
é isso que você chama de amor."

O jogo da amarelinha - capítulo 7 (Rayuela)

"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha o seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor da fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

(Julio Cortázar)
Sonho, no sono do mistério,
o sonho dos poetas: a sagrada utopia.
Sonho, remir meus desejos em teus beijos,
dormir no leito da quietude da noite
às primeiras horas do alvorecer.
Sonho, que por um beijo teu, eu de gozo morreria.
"É ela, Deus do céu, é ela!
Como a encontrei, não sei.
Como chegou até aqui, não vi.
Mas é ela, eu sei que é ela
porque há um rastro de luz
quando ela passa, e quando ela
me abre os braços eu me crucifico
neles banhado em lágrimas de ternura..."

(Vinícius de Moraes)


Balanços

"Como saber sem tentar?
Como tentar se é tão fácil
conformar-se de saída
com a idéia de fracasso?

Pois fracassar justifica
o não se ter nem sequer
admitido não querer-se
aquilo que mais se quer.

É um beco sem saída,
mas sempre é melhor que a rua:
mais estreito. acolhedor.
Vem, entra. A casa é tua."

(Paulo Henriques Britto)
Para que em mim tu existas
basta apenas que:
cruzes em rosa a grama
deite rolando na cama
acenda em vermelho olhar embriagado
derrame-se em lágrimas
a música do Chico apaixonado


"meu coração não se cansa de ter esperança..."

Uma poesia

Quando surges
com o frêmito das coisas urgentes
é como se o ar perdesse o tino
e urgisse despentear avencas.

A vida é promessa realizada
ao sabor de um simples verso
toco-te, num forte abraço.